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Antes de ser foto, é encontro: o retrato como caminho de autoconhecimento

No começo da minha carreira, há dez anos, eu tinha um cenário muito claro do que seria o sucesso: eu dominaria as poses. E como faria isso? Decorando todas as poses possíveis e apenas reaplicando-as. Mas a fotografia ̶ e, principalmente, as pessoas ̶ me ensinaram o contrário. A cada cliente que passava pelo meu estúdio, eu percebia que nada se repetia. As poses não encaixavam igual, os gestos não tinham o mesmo sentido. O que uma amava, outra rejeitava. Foi aí que entendi: não era sobre mim, nem apenas sobre a cliente. Era sobre nós ̶ e sobre o que acontece nesse espaço invisível entre a vulnerabilidade de quem se permite ser vista e a entrega de quem segura a câmera. É nesse entrelaço que a fotografia deixa de ser técnica e se torna encontro.

A experiência de ser fotografada é, na verdade, um exercício de autoconhecimento camuflado. Costumo dizer que, quando fazemos nossas selfies, somos donas da própria imagem: sabemos nossos ângulos, ajustamos o cabelo, mudamos o olhar ̶ e só clicamos quando nos sentimos prontas. No estúdio, é diferente. Há uma luz que vem de fora, um olhar que observa e um instante em que o controle escapa. Tudo aquilo que você achava que sabia sobre si mesma parece se dissolver. O corpo hesita, as mãos não sabem onde ficar, e surge aquele pensamento quase infantil: “o que eu faço agora?” É nesse momento que a fotografia começa de verdade ̶ no espaço entre a vulnerabilidade e a direção. Por isso, sempre pergunto às minhas clientes se existe algo sobre sua imagem que merece cuidado: o lado preferido do rosto, o sorriso, o cabelo atrás da orelha. Porque o retrato é feito de confiança. E é esse cuidado que, no fim, leva àquela frase que tanto amo ouvir: “Nossa... sou eu mesma?”

Nas entrelinhas de cada ensaio é onde encontro o que realmente busco em cada mulher. Existem gestos, olhares e pequenos trejeitos que são só dela ̶ sinais quase imperceptíveis que contam quem ela é. Por isso, o clique do botão não é o começo; é o fim. A pose verdadeira nasce daquilo que a mulher tem de único. Depois de tantos anos fotografando, posso afirmar com convicção: muitas ̶ se não a maioria ̶ ainda não sabem que carregam em si algo intransferível, impossível de copiar. A sua essência. O motivo que leva alguém a

buscar uma sessão pode ser parecido com o de tantas outras; a foto de referência pode ser igual. Mas o resultado, nunca. Porque as fotos podem até fazer parte de um projeto de vida ̶ mas, sozinhas, elas não são o resultado final. Elas são o caminho.

Algo que aprendi logo nos meus primeiros ensaios é que algumas mulheres chegam para celebrar algo novo ̶ um recomeço, uma conquista, uma fase feliz ̶, enquanto outras chegam quebradas. Existe um contraste bonito e, ao mesmo tempo, delicado, entre a gargalhada de quem está radiante e o leve tremor nas mãos de quem está tentando se reconstruir. Perceber isso despertou em mim um senso profundo de responsabilidade sobre o que acontece durante a sessão. Eu posso usar a empolgação a meu favor, conduzindo a energia do momento para criar imagens que ultrapassem as expectativas. Mas também posso ̶ e às vezes preciso ̶ deixar a câmera de lado, ajeitar um cabelo, oferecer silêncio e presença, e simplesmente escutar. Porque elas são, no fundo, como eu. Em cada história, encontro um ponto de convergência. E mais do que fotografá-las como eu gostaria de ser fotografada, eu aprendi a doar o meu tempo como gostaria que doassem o tempo para mim.

Congelar o tempo é algo que qualquer foto faz. Não precisa de técnica, de empatia, de grandes equipamentos ou esforços. Mas, pra mim, a verdadeira luz sobre tudo isso está em revelar verdades. Quando ela olha a foto e não se reconhece, na verdade está diante de um confronto: entre a imagem que acreditava ser e a que realmente é. Ninguém precisa saber posar como uma top model ̶ não é sobre isso. Melhor do que ver uma referência reproduzida na foto, é ver você. Antes de ser foto, é encontro. É reencontro.

 
 
 

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