Fotografar é entender gente: o poder de conhecer o temperamento do seu cliente
- Gabi Ponte
- 28 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Eu já vivi muitas sessões em que tudo parecia perfeito.A cliente chegava animada, sorria, elogiava cada clique, vibrava a cada troca de roupa.E, enquanto eu fotografava, vinha aquela sensação boa de “acertar”: de que o ensaio estava fluindo, de que ela estava amando.
Mas o curioso é que, quando chegava o momento de escolher as fotos, algo mudava.Ela não escolhia nenhuma foto extra.Ficava apenas com o pacote contratado e, muitas vezes, não voltava a agendar comigo.Durante muito tempo isso me confundiu — porque, no estúdio, parecia ter dado tudo certo.
Foi aí que comecei a perceber que o que eu via não era necessariamente falta de resultado, mas o temperamento se manifestando.Aquela cliente extrovertida, vibrante, efusiva — muito provavelmente uma sanguínea — demonstrava entusiasmo no instante, mas não necessariamente o mesmo envolvimento depois.E entender isso mudou completamente a forma como eu me posiciono durante os ensaios.
Em contrapartida, também vivi o extremo oposto.
Teve vezes em que, durante o ensaio, eu dava o meu melhor — direcionava, criava, ajustava cada detalhe — e, a cada pausa, mostrava as fotos pra cliente, como sempre faço.Mas, diferente das que vibram e elogiam, ela não reagia. Nenhum sorriso, nenhum “amei”.
E aquilo me atravessava.Eu terminava o ensaio com uma sensação de derrota, achando que tinha falhado, que não estava honrando o valor que ela havia confiado em mim.
Só que, dias depois, quando eu enviava as fotos pra escolha, vinha a surpresa: ela comprava várias imagens extras, elogiava o trabalho, me agradecia dizendo que tinha chegado tímida, insegura, e que eu a deixei à vontade.
Foi quando percebi: o silêncio não é falta de encantamento — às vezes, é apenas o tempo que a pessoa precisa pra processar o que está vivendo.
Também existem aquelas clientes que trazem um outro tipo de desafio.São as que chegam com tudo muito claro na cabeça: o que querem, como querem, e, principalmente, como acham que devem sair nas fotos.
Ao longo desses dez anos, percebi que esse tipo de cliente nem sempre é só uma questão de temperamento — às vezes, é reflexo de algo mais profundo.O excesso de exposição a selfies e filtros criou uma forma distorcida de autopercepção, e quando a câmera mostra uma versão diferente, vem o desconforto.
Essas pessoas têm uma rigidez que se manifesta durante o ensaio: não aceitam muitos ajustes, não gostam de ser contrariadas e, em alguns casos, só se sentem seguras quando conseguem se enxergar de volta — como se precisassem controlar a própria imagem.
Já tive situações em que a única forma de conduzir o ensaio foi fotografando o reflexo da cliente no espelho, porque ali ela sentia que ainda tinha o domínio.Outras vezes, ela olhava a pose no espelho antes de voltar pra frente da lente.E há aquelas que só aceitam ser fotografadas de um lado — o lado que já conhecem, o que “funciona”.
Nesses casos, o cuidado precisa ser redobrado.Ou você encontra um meio-termo que traga segurança pra ela, ou corre o risco de romper a confiança.E o mais delicado é perceber que, muitas vezes, essa rigidez não é arrogância — é medo.
Quando comecei a perceber esses padrões de comportamento, tudo ficou mais leve.
Eu entendi que o resultado de um ensaio não depende apenas de mim, da luz, da direção ou da técnica — mas também do que a cliente carrega dentro dela naquele dia.
A euforia, o silêncio e o controle não são sinais de sucesso ou fracasso; são apenas expressões diferentes de quem está vivendo algo novo diante da câmera.
Quando a gente passa a enxergar isso, tudo muda.A autocrítica dá lugar à empatia.A cobrança se transforma em curiosidade.E a fotografia volta a ser o que sempre deveria ter sido: um espaço de encontro entre duas humanidades — a que fotografa e a que se permite ser fotografada.
É por isso que, pra mim, fotografar é entender gente.Porque quando o fotógrafo entende pessoas, ele deixa de buscar aprovação e passa a buscar conexão.



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